Revisão sistemática e meta-análise.
J Parenter Enteral Nutr. 2026;50:920–937. Outubro 2026
A desnutrição é um fator de risco independente para complicações pós-operatórias após cirurgia colorretal particularmente infecções do sitio cirúrgico — como também para o aumento no tempo de recuperação .
Embora existam evidências sugerindo que intervenções nutricionais perioperatórias possam reduzir as taxas de complicações, a literatura sobre o tema é heterogênea em função de variáveis difíceis de serem controladas/contornadas.
Nesta publicação, foi realizada uma revisão sistemática e metanálise buscando as evidências disponíveis sobre os resultados obtidos com as seguintes intervenções nutricionais perioperatórias:
- Suplementação proteica
- Imunonutrição ( Suplementação de Arginina/Glutamina/Nucleotídeos Omega -3)
- Sobrecarga de carboidratos no pré operatório
- Progressaõ da dieta no pós operatório
Métodos:
Pesquisa realizada nas bases de dados Medline, Embase, CAB Abstracts e CINAHL, entre 2000 e 2023, a procura de estudos que avaliaram a suplementação proteica perioperatória, a imunonutrição, a sobrecarga de carboidratos e a progressão da dieta no pós-operatório de pacientes submetidos a cirurgia colorretal.
O risco de viés de cada estudo e a força geral das evidências (SOE} foram avaliados por meio dos métodos padronizados.
- Total de estudos elegíveis: 27 :
- Estudos com risco de vies baixo ou moderado: 10
- Estudos com risco de vies alto: 17
Resultados:
- Infecção do sitio cirúrgico: A suplementação proteica e a imuno nutrição podem trazer benefícios quando comparadas com a simples orientação dietética. (SOE moderado
- Sobrecarga de carboidratos: Pode não resultar em diferenças (benefícios) em relação simples orientação dietética (SOE baixo)
- Taxas de descência de anastomuses: Imunonutrição e a sobrecarga de carboidratos provavelmente, não impactaram nas taxas de deiscência anastomótica (SOE moderado)
- Tempo de internação: A imunonutrição e a sobrecarga de carboidratos podem não resultar em diferenças no tempo de internação hospitalar (SOE baixo).
- Dieta ideal no pós operatório: As evidências foram insuficientes para determinar qual é a dieta ideal imediatamente após a cirurgia.
Conclusões:
- As intervenções nutricionais perioperatórias em cirurgia colorretal são heterogêneas, e as evidências atuais sugerem benefícios que variam de pequenos a desprezíveis no que diz respeito às complicações pós-operatórias.
- A maior parte das evidências é insuficiente, o que aponta para oportunidades de pesquisa visando aprimorar ainda mais a otimização nutricional e limitar complicações.
Comentários dos autores:
- Referente à sobrecarga de proteinas:
Embora a ingestão ideal de proteínas no período pré-operatório ainda não esteja definida, as diretrizes para pacientes graves, não submetidos a cirurgia, recomendam o consumo de, pelo menos, 1,2 a 2,0 g ptn/kg/dia.
A proteína do soro de leite (whey protein) e a caseína são consideradas proteínas de altíssima qualidade para promover a síntese muscular e estimular o anabolismo em pacientes com câncer avançado, visto que são fontes proteicas completas contendo todos os aminoácidos essenciais e necessários durante o estresse cirúrgico.
Além disso, o consumo de 25 a 35 g de proteína em uma única refeição é a estratégia mais eficaz para maximizar a síntese de proteína muscular.
Esta revisão encontrou baixa evidência científica do benefício obtido com a suplementação proteica, (menores taxas de infecção do sítio cirúrgico e nenhuma diferença em outros desfechos pós-operatórios em comparação com a orientação dietética isolada). No entanto, a suplementação proteica pré e pós-operatória continua sendo uma intervenção importante a ser considerada para pacientes submetidos à cirurgia colorretal. Não apenas o perfil de efeitos colaterais é favorável, mas a suplementação proteica é um elemento que participa do amplo espectro de intervenções realizadas desde a pré-habilitação até recuperação pós-operatória completa.
As conclusões de nossa revisão não implicam necessariamente que a suplementação proteica careça de mérito significativo, mas sim que o estado atual da literatura sobre a intervenção e os desfechos de interesse não nos permite chegar a uma conclusão definitiva.
- Referente à Imunonutrição: (Suplementação de Arginina, Glutamina, Nucleotideos e Omega-3)
Assim como ocorre com a suplementação proteica, a avaliação crítica da literatura disponível impede que se chegue a uma conclusão com um grau de certeza minimamente aceitável a respeito da oferta de nutrição imunomoduladora (IMN) no período perioperatório.
- Referente à sobrecarga de carboidratos
A sobrecarga de carboidratos complexos antes da cirurgia é uma estratégia usada para mitigar a resposta fisiológica ao estresse responsável por lesão oxidativa,disfunção imunológica e hiperglicemia (resistência à insulina: periférica e central).
Fornecer ao paciente, um suprimento de carboidratos complexos na noite anterior e 2 horas antes da cirurgia, demonstrou, repetidamente, limitar as manifestações prejudiciais causadas pela resposta ao estresse cirúrgico. Essa estratégia também provou ser segura sem trazer risco adicional de aspiração durante a anestesia.
O suplemento mais comumente estudado é um mistura líquida contendo 12,5 g de carboidrato/ 100 ml. A menos que haja contraindicação, o paciente é orientado a tomar um suplemento na noite anterior à cirurgia e repetir 2 horas antes da indução da anestesia.
- Referente à dieta ideal no período pós-operatório
Teoricamente, propõe-se que o consumo de uma dieta pobre em fibras limite o volume fecal, minimize o trauma resultante em uma anastomose recém-criada e, possivelmente, reduza as cólicas abdominais. A progressão da dieta no pós-operatório também permite avaliar a tolerância do paciente de forma gradual.
Essas duas premissas, aceitas há muito tempo, merecem ser avaliadas por meio de um ensaio clínico randomizado (RCT), uma vez que nossa busca na literatura não identificou nenhum estudo que traga luz sobre este assunto.
No momento, as preferências do cirurgião e os dogmas da prática clínica, continuarão a ditar a escolha da dieta no pós-operatório.
- Limitações
As principais limitações em nossos resultados referem-se à quantidade e à qualidade da maior parte dos trabalhos disponíveis
Apêndice:
SOE- Overall Strength of Evidence — ou a força/certeza geral da evidência — em artigos de revisão sistemática avalia o nível de confiança de que a estimativa do efeito encontrada na revisão está próxima do efeito real.
O cálculo é realizado por meio de um sistema de pontuação básica relacionada ao de acordo com o desenho do estudo, que sofre rebaixamentos ou elevações a partir de critérios específicos
Após aplicar os ajustes, o conjunto de evidências para o desfecho recebe um dos quatro selos de classificação:
- Alta: Há muita segurança de que o efeito real está próximo do estimado pela revisão. É muito improvável que novas pesquisas mudem esse resultado.
- Moderada: Há uma confiança moderada na estimativa. Pesquisas futuras podem ter um impacto importante e modificar o resultado.
- Baixa: A confiança na estimativa é limitada. O efeito real pode ser substancialmente diferente do que foi encontrado.
- Insuficiente: Os dados disponíveis são escassos, conflitantes ou metodologicamente falhos demais para permitir qualquer conclusão.
